Antologio

Sobre o Respeito às 👨‍⚖️ Leis / Thoreau

Henry David Thoreau.

Henry David Thoreau em "A Desobediência Civil e Outros Escritos". Texto 1: "A Desobediência Civil". Editora Martin Claret, São Paulo, 2002.

Será que o cidadão deve desistir de sua consciência, mesmo por um único instante ou em última instância, e se dobrar ao legislador? Por que então estará cada pessoa dotada de uma consciência? Em minha opinião, devemos ser primeiramente homens, e só posteriormente súditos. Cultivar o respeito às leis não é desejável no mesmo plano do respeito aos direitos. A única obrigação que tenho direito de assumir é fazer a qualquer momento aquilo que julgo certo. Com toda razão, costuma-se dizer que uma corporação não tem consciência. Uma corporação de homens conscienciosos, todavia, é uma corporação consciente. A lei jamais tornou os homens sequer um pouco mais justos. O respeito reverente pela lei tem levado até mesmo os bem-intencionados a agir quotidianamente como mensageiros da injustiça.

[...]

[Há uma] massa de homens que serve ao Estado não na sua qualidade de homens, mas sim como máquinas, entregando seus corpos. [...] Na maioria das vezes não há qualquer livre exercício de escolha ou de avaliação moral. Diferentemente, esses homens se igualam à madeira, à terra, e às pedras. Creio ser possível que se consigam fabricar bonecos de madeira com o mesmo valor de homens desse tipo. Não merecem mais respeito do que um espantalho ou um monte de terra. Valem tanto quanto quanto cavalos e cachorros.

É comum, no entanto, que homens assim seja apreciados como bons cidadãos. Há outros, tal qual a maioria dos legisladores, políticos, advogados, funcionários e dirigentes, que servem ao Estado principalmente com a cabeça, sendo bastante provável que sirvam tanto ao diabo quanto a Deus - sem intenção -, já que raramente se dispõem a fazer distinções morais. Uma quantidade bastante reduzida há que serve o Estado também com sua consciência: são os heróis, patriotas, mártires, reformadores, e homens, que acabam por isso necessariamente resistindo, mais do que servindo. Conquanto isso, o Estado os trata geralmente como inimigos.

Um homem sábio será fatualmente útil apenas como homem, e jamais se sujeitará à condição de "barro" a ser moldado para "tapar um buraco e cortar o vento". (Shakespeare, Hamlet, parte V) Sem dúvida que ele preferirá deixar esse papel, na pior das hipóteses, para suas cinzas:

"Minha origem é nobre demais para que eu seja propriedade de alguém Para que eu seja o segundo no comando ou um útil serviçal ou instrumento de qualquer Estado soberano deste mundo."

(Shakespeare, King John, parte V)

Aqueles que se dedicam por completo a seus semelhantes são por eles considerados inúteis e egoístas. Todavia, aqueles que se dedicam apenas em parte são considerados benfeitores e filantropos.

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